Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

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Educao e Trabalho

Anlise dos Resultados

I. Introdução

Os anos 90 foram marcados por mudanas substanciais no mercado de trabalho brasileiro. A recesso econmica do perodo 1990/92, a abertura comercial, o ajustamento no setor privado em busca de maior competitividade, o plano de estabilizao econmica e a privatizao repercutiram sobre a ocupao, a desocupao e o rendimento dos indivduos. Reduziu-se substancialmente o nmero de trabalhadores na indstria de transformao e, em contrapartida, expandiu-se o nmero de trabalhadores nos setores de "prestao de servios" e do comrcio. Assim como, declinou o nmero de pessoas trabalhando com carteira assinada e aumentou o nmero de pessoas trabalhando sem carteira assinada e por conta prpria, como mostram os resultados da Pesquisa Mensal de Emprego.

O avano da tecnologia apontado como o principal motivo da eliminao de postos de trabalho na indstria. As novas tecnologias de informtica e de comunicao provocaram o desaparecimento de vrias categorias de ocupao. O setor de servios que absorvia a mo-de-obra liberada na indstria tambm est sendo invadido por novas tecnologias e, por isso, no consegue gerar postos de trabalho em quantidade suficientes para impedir o crescimento do desemprego. O argumento de que as organizaes, em busca de maior competitividade, fizeram a reestruturao administrativa e introduziram novas tcnicas de racionalizao do trabalho que geraram maior produtividade, maiores lucros e mais desemprego. O trabalho autnomo expandiu-se enormemente nos anos 90, quando comparado dcada anterior. A qualidade desse trabalho outro ponto de questionamento dos estudiosos do assunto.

Em busca de respostas para as questes anteriores, aplicamos, em abril de 1996, nas seis maiores regies metropolitanas do pas, um questionrio, onde procuramos investigar a mobilidade dos indivduos de 20 anos e mais que compunham a fora de trabalho naquele ms, em relao a situao que se encontravam no mercado de trabalho em abril de 1991, o grau de satisfao no exerccio de sua atividade, a incorporao de novas mquinas e equipamentos no processo produtivo, a mobilidade social, definida como o nvel de instruo do pai e da me, alm das expectativas de trabalho das pessoas que se encontravam na condio de inatividade.

II.  Mobilidade dos indivduos entre as condies de atividade

Os resultados da Pesquisa Mensal de Emprego, para o conjunto das seis regies metropolitanas pesquisadas, revelam que de abril de 1991 para abril de 1996 a taxa de atividade caiu 1,3 ponto percentual, devido queda da taxa de ocupao que passou 57,7% para 56,2%, dado que a taxa de desocupao no se alterou significativamente (3,5% para 3,6%), procurou-se investigar o movimento entre as condies de economicamente ativa e no economicamente ativa. O movimento de entrada no mercado de trabalho (trabalhando ou procurando trabalho) foi maior do que o de sada, 25% das pessoas que estavam na condio de economicamente inativas em abril de 1991 passaram a condio de economicamente ativas em abril de 1996, contra 17% que se movimentaram em sentido contrrio. A entrada no mercado foi maior nas Regies Metropolitanas de Salvador e de Belo Horizonte e a sada, na Regio Metropolitana de Recife (grficos 1 e 2). A sada da fora de trabalho foi maior para as mulheres do que para os homens. 28,4% das mulheres economicamente ativas se tornaram inativas, enquanto para os homens este percentual foi de 8,7% (grfico 4). Dentre as pessoas no economicamente ativas se mantiveram na condio 79,4% das mulheres e 60,3% dos homens (grfico 5).

III. Mobilidade dos indivduos entre as categorias de ocupao

Nos ltimos anos ocorreram mudanas significativas nas relaes de trabalho. Os resultados da pesquisa revelaram que, no conjunto das seis regies abrangidas, 17% das pessoas empregadas em maio de 1991 passaram a condio de no empregadas em abril de 1996 (grfico 3), sendo 14,2% como trabalhadores por conta prpria, 2,2% como empregadores e 0,5% como trabalhadores sem remunerao. As Regies Metropolitanas de Salvador e de Recife foram as que apresentaram os percentuais mais elevados, 19,7% e 18,5%, respectivamente. Nesses cinco anos, mantiveram-se na categoria, 67,6% dos empregados com carteira assinada, 62,9% dos conta prpria, 55,9% dos empregadores e 50,4% dos empregados sem carteira assinada. Dos empregados com carteira assinada, categoria mais importante dentre as pessoas ocupadas, 16,4% passaram a trabalhar sem carteira assinada (grfico 15), 13,3% por conta prpria e 2,3% como empregadores. Em termos percentuais, a transferncia mais significativa foi de empregadores para conta prpria, 25,8%. No perodo analisado, a estimativa de que aproximadamente 2 milhes de empregados com carteira assinada, 863 mil empregados sem carteira assinada, 678 mil pessoas que trabalhavam por conta prpria e 157 mil empregadores passaram para outras categorias, nas seis maiores regies metropolitanas do pas.

IV.  Mobilidade dos indivduos entre os setores de atividade

Nos anos 90, assistiu-se a um aumento de produtividade bem superior a dos anos 80. O setor industrial liderou o processo de automao e reestruturao produtiva, cujo objetivo de reduzir os custos de produo e aumentar a competitividade internacional, como mencionamos anteriormente, mas os avanos tecnolgicos se fizeram presentes em todos os setores de atividade. At o setor de servios que tradicionalmente absorvia mo-de-obra liberada pela indstria foi invadido por novas tecnologias, como a da informtica. No caso do Brasil, as mudanas nos 90 foram no sentido do trabalho ilegal (sem carteira de trabalho assinada) e informal (trabalho autnomo ou por conta prpria), mais representativos nos setores da construo civil, do comrcio e de servios.

A pesquisa mostra que num perodo de cinco anos, 44,8% das pessoas que trabalham no setor de comrcio passaram para outros setores (grfico 11). Na indstria de transformao, esse percentual foi de 40,8%. Salvador e Recife foram as regies com percentuais mais elevados, 54,5% e 51,1%, respectivamente (grfico 6). Nas regies que ocupam um percentual maior de pessoas nesse setor, a transferncia atingiu 37%. Estima-se que na Regio Metropolitana de So Paulo 484 mil pessoas passaram para outros setores. Desse total, 60% foram para o setor de servios e 24% para o de comrcio. Em Porto Alegre, a estimativa de emigrao de 86 mil pessoas do setor da indstria para os demais, sendo 55% para o setor de servios.

Talvez pela natureza do seu trabalho e pelas expectativas das pessoas de ganhos mais elevados, devido dificuldade no controle de preos e falta de concorrncia internacional, o setor de servios foi o que recebeu o maior percentual de pessoas dos demais: 27% das pessoas que trabalharam no comrcio e no setor de outras atividades, 23,4% da indstria de transformao e 19,9% da construo civil. Pelo mesmo motivo, foi o setor de menor transferncia, apenas 19,8% do contingente de seus trabalhadores em maio de 1991, estavam em outros setores em abril de 1996 (grfico 12).

V.  Posio dos indivduos no mercado de trabalho segundo seus rendimentos

Segundo classificao pr-estabelecida da situao dos indivduos no mercado, em termos de rendimento (melhor pagos, muito bem/bem pagos, mal/muito mal pagos), chega-se a indicadores que sugerem a mobilidade dos indivduos no perodo de 5 anos.

No conjunto das seis regies metropolitanas pesquisadas, constata-se que 2% das pessoas que se consideravam "muito bem" ou "bem pagas" em maio de 1991, melhoraram de situao, pois se consideraram "melhor pagas" na ocupao que exerciam em abril de 1996. Este percentual foi maior na regies metropolitanas do nordeste, Recife e Salvador, em torno de 4% e menor nas regies metropolitanas do sudeste, So Paulo, 1,8% e Rio de Janeiro, 1,5% (grfico 25). Das pessoas que se consideravam "mal" ou "muito mal pagas" em maio de 1991, 19,5% declararam ter melhorado de situao em abril de 1996 (grfico 26). O excesso de oferta em relao a demanda por mo-de-obra, o desaparecimento de algumas ocupaes, em funo do avano tecnolgico, a privatizao, o controle nos gastos do setor pblico afetaram a remunerao dos indivduos. Nesse sentido, 73,1% das pessoas que se consideravam "melhor pagas" em maio de 1991 passaram a se considerar em condies inferiores em abril de 1996, ou seja, pioraram de situao (grfico 27). O mesmo aconteceu com 41,6% das pessoas que se consideravam "muito bem" ou "bem pagas" em maio de 1991 (grfico 28).

VI. Mobilidade social

Para subsidiar a anlise do movimento dos indivduos no mercado de trabalho, investigou-se o nvel de escolaridade do pai e da me das pessoas de 20 anos e mais de idade abrangidas pela pesquisa em abril de 1996, das quais 54,1% se encontravam na condio de ocupadas, 34,9% de no ocupadas e 11,0% no conseguiram responder ao quesito, o que pode ser explicado pelo aumento da rotatividade no mercado de trabalho nos ltimos anos. As constantes mudanas tm uma forte influncia quando se recorre a memria dos indivduos, num perodo de tempo mais elevado, como no caso, cinco anos.

Mesmo assim, o resultado observado atendeu s expectativas, isto, o movimento da taxa de ocupao est diretamente relacionado com a escolaridade dos pais dos indivduos, enquanto o da taxa de no ocupao est inversamente relacionado.

Observa-se que, no conjunto das seis regies metropolitanas, a taxa de ocupao aumentou, de maio de 1991 para abril de 1996, para os indivduos cujo pai apresentava pelo menos o primeiro grau. O acrscimo mais significativo foi para os indivduos cujo pai tinha o nvel superior, de 58,4% para 64,5%. J a taxa de no ocupados aumentou para os indivduos cujo pai, no mximo, apresentava o primeiro grau. A variao mais expressiva foi para os indivduos cujo pai no era alfabetizado, de 42,3% para 46,4%. Considerando-se o nvel de instruo da me, o comportamento foi semelhante, como mostra a tabela anexa.